Precisamos falar sobre privilégios

A existência de uma cultura machista é uma incontestável realidade. Todos fomos criados em uma sociedade primordialmente machista, cujo passado não muito distante inadmitia qualquer posição de real importância às mulheres. Por isso, todos, homens e mulheres, temos em nossas condutas e pensamentos resquícios de uma cultura machista. E essa discussão não diz respeito pura e simplesmente à minha, ou à sua conduta, mas à conduta de uma sociedade de forma generalizada. Colocando de uma outra forma, não é porque você respeita as mulheres que elas consequentemente são respeitadas na sociedade.

Antes de falar sobre privilégios, precisamos falar sobre preconceito/opressão, o que fatalmente esbarrará no conceito de lugar de fala, uma vez que, na visão generalizada supramencionada, eu me enquadro em um dos graus máximos de opressor: homem, branco, cisgênero, heterossexual, e por aí vai. Meu lugar de fala é inexistente, é sentado na cadeira, calado, escutando e anotando. Aliás, por isso que resolvi publicar isso hoje, um dia depois do dia internacional da mulher.

Todavia, estamos aqui para falar de privilégios, que teoricamente eu conheço bem. Na realidade, não é tão fácil reconhecer privilégios quando não se pede por eles, e grande parte deles não consistem em vantagens, mas em não-desvantagens (sim, é uma questão vetorial, mas tem uma diferença relevante).

Pois bem, se vou começar apontando a opressão, me limitarei a reproduzir o que já presenciei ou li a respeito, sem julgamentos de valor (pois nunca senti na pele, tampouco é o objetivo desse texto). O machismo é facilmente perceptível, apesar de muitas vezes fecharmos os olhos para ele, e por isso não trago nenhuma novidade, ressalvando que há questões muito mais sutis que podem ser detalhadamente encontradas em diversos blogs feministas (ou que eventualmente trataram do feminismo), e que você provavelmente ouviu falar ontem.

As mulheres são diariamente oprimidas. Basta sair na rua para uma mulher ser desrespeitada ou ofendida (mesmo que dentro de uma odiosa máscara de elogio). Esse desrespeito constante (que já é ultrajante), facilmente ultrapassa as barreiras verbais, fato que também é assustadoramente corriqueiro. O resultado disso é o constante medo de andar na rua, no ônibus, no táxi, no bar, na balada e às vezes até no trabalho ou em casa. Os números de ocorrências de violência contra mulheres são altíssimos, ainda sem contar os casos não relatados às autoridades.

Não fosse suficiente, a mulher tem que se provar constantemente no trabalho, porque é presumidamente mais fraca e menos competente do que o homem. Ela tem que aceitar determinadas posturas e condutas impostas pela sociedade. Tem a obrigação de coordenar a casa, cuidar dos filhos e do marido, que é a sua real vocação. E ai dela se não quiser marido, filhos, ou cuidar da casa! Ela tem que ser bonita (considerando os padrões midiáticos de beleza) para ser respeitada, porque uma mulher bem sucedida e “feia” é mais comentada pela sua estética do que pela sua competência. Ironicamente, a mulher bem sucedida e “bonita” também tem sua estética mais comentada que seu sucesso, que por sua vez é atribuído à sua beleza ou suas presumidas aventuras sexuais com o “homem que a colocou lá”. A mulher tem que ser bonita, gostosa, pudica e se dar ao respeito. Não pode usar roupa muito comprida nem muito curta. E se a roupa for curta ou provocante, ela quer sexo. E quem quer sexo, quer sexo com qualquer um, então não cabe a ela recusar. E se ela for estuprada, não pode reclamar porque, afinal, deveria saber que algum homem não aguentaria a tentação. Em pleno século XXI, por mais absurdo que pareça na teoria, a mulher que foge desses paradigmas é fortemente criticada e descreditada, seja de forma explícita ou velada.

Eu poderia passar páginas exemplificando casos de estupro cuja “culpa” ou a “responsabilidade” foram atribuídas à vítima; ou matérias sobre mulheres que realizaram coisas notáveis, mas que o foco da reportagem é a sua aparência, ou pior, “o homem por trás de seu sucesso”; ou até mesmo situações em que a mídia escracha mulheres por certos comportamentos (coisa de puta, devassa, que não se dá ao respeito), simplesmente por uma visão machista de que isso não é comportamento compatível com uma mulher, haja vista que os mesmos veículos elogiam homens que apresentam comportamentos similares (garanhão, comedor). Ora, basta ver a diferença de reações e comentários quando vazam nudes de uma mulher ou de um homem. Os exemplos são muitos e estão escancarados na internet.

O objetivo aqui é demonstrar que diante de tão notórios exemplos da cultura machista (lembrando que há inúmeros outros, às vezes não tão perceptíveis), o primeiro passo para o homem é reconhecer os seus privilégios, muitos deles que sequer palpáveis são, de tão intrínsecos na nossa cultura.

Privilégio não é só ganhar mais, ou ter maior espaço no mercado de trabalho, mas é também a não-desvantagem. É não ter que se preocupar com questões de gênero no dia-a-dia. É não custar mais para o empregador, não ser assediado no trabalho ou em qualquer situação de vulnerabilidade ou subordinação. É não ter seu gênero ligado a insultos de fragilidade ou incapacidade. É não ser apalpado, insultado, incomodado na rua, ou ter medo de ser estuprado. É não ser objetificado, julgado pelas condutas em relação à sexualidade, diminuído intelectualmente pela sua aparência, ou não ter seu humor atribuído aos hormônios. É não ter pressão social para constituir família e cuidar da casa. Qualquer vantagem que o homem tem pelo simples fato de ser homem é um privilégio. E sim, a não-desvantagem, mesmo que você não tenha pedido por ela, é um privilégio sobre quem esteja em desvantagem (que, aliás, também não pediu por ela).

O discurso que nega a existência de privilégios pouco se distancia do discurso que enaltece a meritocracia pura. O cara não ofende, subjuga, oprime, molesta, estupra, diminui a mulher e, o mais importante, não pediu pra nascer homem. Por que então apontar o dedo para a sua cara como se fosse culpado de alguma coisa? Não se trata de apontar o dedo para a cara de ninguém, mas sim de reconhecer que tem privilégio quem usufrui dele, mesmo que involuntariamente. Trata-se de desconstruir a nossa tão arraigada cultura machista, pois na nossa sociedade o simples fato de nascer homem já é um privilégio.

E não é crime ser privilegiado, mas reconhecê-lo é essencial para fomentar qualquer mudança que contribua com uma sociedade mais tolerante e igualitária. É o que permite a empatia, a curiosidade, o interesse em pesquisar, ler, fazer alguma coisa a respeito. É o que permite a autorreflexão de alguém que não oprime ninguém conscientemente a perceber uma atitude preconceituosa involuntária que até então passava despercebida, ou até que permita a reanálise de um comentário mal interpretado, para saber se foi um problema na comunicação (e aprender com o erro) ou no entendimento (e esclarecer o equívoco).

Seja homem ou mulher, não basta somente tratar a mulher com respeito e fechar os olhos para a realidade. É preciso garantir esse tratamento no dia-a-dia, se informar, tomar atitudes, perder o medo de contestar e ser julgado por isso.

Óbvio que não se trata de fazer as vezes de salvador da pátria e tratar a mulher como inimputável, intervindo em qualquer oportunidade sem antes saber se a pessoa está realmente incomodada, se não se sente confortável de confrontar seu opressor, ou até se ela sente que realmente precisa de ajuda. Às vezes o primeiro passo é conversar com o opressor para saber se ele entende o que está fazendo, ou até se a vítima entende que está sendo oprimida ou entender por que ela não se incomodou. Somente a informação, o engajamento, a preocupação já fazem uma diferença tremenda para uma gradual mudança. Podemos começar por não julgar a mulher pela sua roupa, maquiagem, aparência e reprimir quem o faça, nem que de forma sutil (ou não tão sutil).

Finalizo dizendo que demorei muito para escrever esse texto porque o mundo está muito chato. E que bom que está. Embora incomode precisar de tanta cautela para escrever sobre um assunto que deveria ser mais leve e corriqueiro, essa chatice demonstra que as coisas estão começando a mudar. Se o mundo está chato, não é porque as coisas que outrora não ofendiam, agora ofendem. É porque as pessoas que já se ofendiam estão começando a ganhar voz, espaço e importância na sociedade.

Espero que paremos de comemorar o dia das mulheres e usemos essa data para reflexão de como alcançar um futuro em que ela não seja mais necessária. Postei esse texto no dia seguinte ao 08/03 para não tirar o foco de quem realmente tem condições de falar sobre esse assunto, mas também para que possamos (homens e mulheres) continuar o debate além do dia internacional das mulheres.

2 comentários em “Precisamos falar sobre privilégios

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