A PF também quer espaço na mídia

Diante da sociedade líquida e das características da pós-modernidade, a forma em que a mídia tem se comportado sofre duríssimas críticas. É uma adaptação que, balizada pelo dinheiro (pressuposto do mundo capitalista) prioriza a exposição, o número de clicks em detrimento do conteúdo, da qualidade e veracidade da notícia veiculada.

Embora grandes veículos tenham se firmado com algum critério editorial para não permitir estelionatos contra os consumidores de conteúdo, o fato é que, em sua esmagadora maioria, a mídia prioriza o título impactante, a imagem impactante, o conteúdo revelador e a rapidez de sua veiculação. Se o texto desmentirá o título, se o conteúdo é composto por meias verdades ou fruto de fontes duvidosas, se a falta de contexto induz o leitor ao erro… nada disso importa. A internet virou uma revista de fofoca, porém, ao contrário das revistas de fofoca, vendem um nível de seriedade que beira uma revista científica.

Pois estamos entrando em um novo estágio. O mundo das redes sociais tornou a opinião popular tão imponente que agora todos se utilizam da cobertura deturpada da mídia com o intuito de vender, crescer, renovar a imagem e ganhar apoio popular. Celebridades, semi-celebridades, empresas de respeito, empresas nem de tanto respeito assim, se utilizam da mídia para pipocar nas redes sociais e, a qualquer custo, ganhar notoriedade (ou depreciar a imagem do concorrente).

É o que temos testemunhado também por parte do judiciário, do legislativo, do executivo, do ministério público e também da polícia. E como tudo o que ocorre hoje em dia, a audácia é tanta que, a cada dia que passa, a preocupação com as consequências é mais reduzida.

Hoje em dia o judiciário fundamenta uma violação de garantia individual na “credibilidade da justiça perante a população”, vulgo clamor social. Hoje o legislativo propõe leis completamente inconstitucionais, desnecessárias, ou flagrantemente prejudiciais ao sistema porque “representam a população” (note que o legislador tem que captar o anseio da população e tentar resolvê-lo através de leis, e não obedecê-la simplesmente). Hoje o executivo se elege fraudando uma população inteira, prometendo muitas vezes coisas que sequer estão dentro de sua competência, ou, se estão, são humanamente impossíveis de se conquistar em um mandato. Assim como na mídia, o que importa é ganhar, é colocar o seu nome na lei, é aparecer. A polícia, que deveria ser categórica, faz o que pode para ganhar holofotes.

Embora a polícia não seja eleita, funciona como propagandista do poder executivo que a controla. Junta-se esse dever não-funcional, porém real, de atender a determinados anseios da população, manejar dados (a exemplo do post sobre os B.O.s eletrônicos), com questões políticas internas e de ego, e temos um resultado desastroso: a polícia agindo publicamente como se tivesse o dever de informar.

O Inquérito Policial é fundamentalmente SIGILOSO. E esse sigilo não tem o condão de proteger a investigação do investigado, mas de proteger o investigado do pré-julgamento popular. A investigação é inquisitiva, sigilosa, não tem contraditório, não respeita uma série de garantias constitucionais exatamente pelo fato de ainda ser mera investigação. A polícia (qualquer uma delas) não tem que dar entrevista coletiva, particular, emitir opinião, vazar documentos.

Porém, estamos em tempos de redes sociais, de mídia desenfreada, de comoções populares em torno de títulos, e não matérias. Estamos em tempos de juiz federal que vaza provas para a imprensa, de indicado a ministro do STF que prepara a sabatina com parlamentares em um iate, ministro do STF que sabota a própria constituição (que deveria proteger) para não perder popularidade (e frise-se que, ao contrário dos políticos, sequer eleito ele é, e, ao contrário da polícia, ele tem garantias de sua independência política e funcional).

Se está todo mundo fazendo, por que a Polícia Federal não vai entrar no barco e expor um suposto esquema que vai dar muita mídia? E daí se um dos pilares da economia brasileira é a agropecuária? E daí se a divulgação precipitada não vai induzir o mercado a erro e atrasar mais dez anos de economia? O que importa é sair bem na foto.

Ninguém está criticando a investigação “carne fraca” em si. Que os culpados paguem pelos absurdos que fizeram. Todavia, falta responsabilidade institucional. Não estamos falando de um jornal escuso sem credibilidade alguma veiculando uma notícia deturpada, mas da Polícia Federal colocando em cheque um braço importante da economia brasileira (que já estava em crise), divulgando informações sem critério algum, simplesmente porque quer espaço na mídia.

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