A verdade incontestável que não convence ninguém

Você mora em um prédio, está em casa e tem 50g de cocaína na sua gaveta de meias.

Um morador qualquer, sem fazer perguntas nem se identificar, deixa policiais subirem até o seu apartamento.

Alguém bate na porta e grita POLÍCIA, abra a porta!

Você destranca a porta. É a polícia civil, sem mandado judicial. Você os convida para entrar. Eles perguntam se você tem alguma droga em sua casa, você diz que sim, vai até a gaveta de meias, pega a droga, entrega aos policiais e é preso em flagrante.

Aí te preguntam: mas você é burro? por que raios não jogou na privada? Não jogou na pia? No ralo? Pela janela? Por que você abriu a porta? Por que deixou que eles entrassem?

Você responde que não deixou ninguém entrar. Que eles meteram o pé na porta, te colocaram de joelhos com um fuzil apontado para a sua cabeça, enquanto reviraram sua casa.

Acontece que é a palavra do policial (que tem fé pública) contra a sua (que não tem). Então a dele ganha.

Essa história foi de um cliente meu. Exatamente essa. Não vem ao caso discutir se ele era traficante ou usuário, se a droga era dele ou foi plantada, se ele foi condenado ou absolvido, se foi preso ou não.

O que vem ao caso é refletirmos se é possível que um juiz, três desembargadores, um promotor e um procurador, seis pessoas, graduadas, concursadas, experientes, tenham acreditado veementemente na versão dos policiais. Sem questionamentos.

O funcionário tem fé pública? Tem. Mas ela é absoluta? Se o policial falasse que foi uma denúncia feita por uma raposa, e que quem franqueou a entrada deles no prédio foi um Poodle, será que eles também acreditariam?

É uma questão tão óbvia, que já é suficiente. Não tem nenhuma sacada de criminalista. Não preciso dizer quem falou a verdade. Eu sei, você sabe, o juiz sabe, o promotor sabe, o procurador sabe e os três desembargadores também sabem.

Só que se todos eles fingirem que não sabem, é mais um bandido na cadeia. Então tudo bem.

E antes que você pense, por um segundo sequer “ah, mas é traficante, tem que prender mesmo”, já saiba que eu não vou contar se ele era ou não era traficante, se tinha trabalho lícito, se era usuário, se foi preso, se tinha família. Nada disso é relevante.

Que sirva para refletir se o que o processo penal busca é a verdade, ou se o que o processo penal busca é a condenação.

Apenas finalizo dizendo uma coisa. Está cheio de militar torturador por aí que arrancou uma grosa de unhas e hoje é saudado por gente que finge que ele não torturou ninguém. A verdade é a verdade, ou a verdade só vale quando nos convém? Hoje é o traficante que é perseguido. Ontem foi o estudante, quem será o perseguido de amanhã?

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