A ocupação da Cracolândia e o fim do De Braços Abertos

A ocupação da Cracolândia no fim de semana do dia 20/05 chegou perto de ser um ato criminoso perpetrado pela prefeitura em parceria com o governo do Estado. O prefeito João Dória, nesse anseio por eficiência e resultado a qualquer custo, transcendeu os abusos pontuais aos moradores de rua e ocupou uma área tomada por usuários de drogas, novamente de forma truculenta.

Não é a primeira vez que a ilusão “a Cracolândia acabou” toma as manchetes paulistas. Sabemos por experiência própria (prefeito e governador também sabem) que isso não vai acabar. Dessa vez a abordagem foi mais agressiva, mais firme, talvez até mais duradoura, mas o fato é que os usuários não vão deixar de ser usuários.

Em meio a invasões sem acompanhamento de profissionais de saúde e assistência social, sem intervenção concreta do SAMU (deixando o atendimento às ONGs locais), e até a demolições ainda com moradores dentro, vemos que o prefeito não estava de brincadeira quando resolveu deixar a cidade linda, maravilhosa, livre de dessa gentalha, que é varrida para debaixo do tapete.

O resultado a curto prazo já é notório: afronta a direitos humanos pelo “fim” de uma situação lastimável que assola a região da luz, replicando aquilo em diversos outros locais, em menor escala. Em termos de segurança pública e controle da situação, a dissipação dos usuários tem seu lado bom e seu lado ruim (que não vem ao caso no momento).

Embora não houvesse quem concordasse com a situação da região, dados os atuais acontecimentos, a população já está dividida entre os sentimentos de indignação pela forma como foi a tomada da Cracolândia, ou pelo sentimento de que essa foi “a melhor solução que encontramos”. Calafrios na espinha à parte por essa última posição, quero falar do outro ponto que interessa, e interessa muito, que é o encerramento do programa “De Braços Abertos” (DBA).

A Prefeitura, que não quer dar dinheiro pra vagabundo gastar com crack, resolveu dar cabo ao DBA e instituir uma nova abordagem: polícia aos que não querem tratamento, internação aos que querem. Diante da dispersão da Cracolândia em várias mini-cracolâncias, o prefeito enche o peito para dizer que quem procurou ajuda foi acolhido.

Muito inteligente, aliás, dar a um viciado essa escolha. Especialmente depois de mais de uma década de programas de internação que não funcionaram porque, pasmem, o viciado não quer largar o vício. Os que querem, mesmo que por algum momento, deixam de querer assim que a abstinência ganha espaço em um ambiente de internação.

O programa De Braços Abertos implementado pelo ex-prefeito Fernando Haddad (mediante meticulosos estudos, etapa que o atual prefeito costuma pular) apresentou uma quebra de paradigma: entenderam que o usuário não está na rua por causa da droga, mas está na droga por causa da rua (leia-se: ausência de lazer, suporte familiar, amigos, emprego, esperança).

É claro que não há uma explicação exata para o motivo do uso, do vício, mas por meio de muitas entrevistas e pesquisas, descobriu-se que o público alvo do programa tinha muito mais problemas relacionados ao convívio com outras pessoas, do que efetivo vício químico. Por isso a ideia do programa é dar casa, comida, trabalho, lazer, apoio psicológico e fomentar a relação entre eles, com as famílias e outros. Com um ambiente propício para uma vida (com frustrações, lazer, felicidades, acompanhamento psicológico, trabalho etc.), a expectativa era que o usuário, por conta própria, diminuísse o uso da droga, para, paulatinamente, deixá-la, procurar ajuda ou quem sabe restringi-la a um uso diminuído, meramente recreativo.

Os resultados, apurados pela fundação Open Society, foram encorajadores: 65% de beneficiários que interromperam ou diminuíram sensivelmente o consumo da droga. Sem polícia, sem tiro, sem bomba, sem porrada, sem internação. Relatos de que a rotina de trabalho e lazer reorganizaram suas vidas a ponto de deixarem a droga, ou fazerem seu uso de fim de semana apenas.

É um programa inovador, no Brasil e no Mundo, baseado na redução de danos, que humaniza essas pessoas, dá suporte, esperança e ainda estuda suas particularidades, aprimorando as possibilidades de intervenções estatais. Um ano depois de sua implementação e finalização das pesquisas, os organizadores fizeram uma reunião aberta, conversaram sobre conquistas e dificuldades, sugestões e prospecções de alterações para melhorá-lo ainda mais. Os resultados de um ano de DBA foram surpreendentes, e muito se poderia aprimorar o programa.

Mas a gente quer uma cidade linda, a gente quer gente bonita e cheirosa, a gente quer lucro, e a gente não vai dar dinheiro pra vagabundo comprar crack, não é mesmo? Dória encerrou o programa, articulou com o Governo do Estado uma invasão policial sem acompanhamento técnico voltado aos usuários, demoliu edificações (inclusive com gente dentro) e agora, depois de tudo isso, já está falando em internação compulsória.

Em outras palavras: tira esse povo daqui que tá enfeiando a minha cidade.

E por uma gestão eficiente, de resultados rápidos e aparentes, completamente descomprometida com o cidadão que não representa números, temos que regredir décadas e ver nossa cidade tratando seres humanos como ratos.

O Prefeito devia tirar essa roupa de gari e se vestir de cracudo por um dia que fosse.

 

Foto: Ze Carlos Barretta – Flickr

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