Exposição derrubada por notícias deturpadas

Irresponsáveis.

É o que tenho a dizer de todos que inflaram essa ira contra o Santander Cultural em função da exposição Queermuseo.

Eu não vou entrar aqui na discussão do que é ou não é arte; do que é arte boa ou arte ruim; ou fazer qualquer consideração sobre gosto.

O que é inegável é que são muitos artistas, alguns deles conhecidíssimos e reconhecidíssimos. Queira ou não, concorde ou não, goste ou não.

Também posso dizer uma coisa de forma muito breve: não houve censura. O Santander cancelou a exposição porque ela foi mal recebida pela opinião pública. Houve boicote, manifestação de opinião, o que é totalmente legítimo. Todavia, a forma do boicote não foi tão legítima assim, e por isso se aproximou tanto da censura.

Também vale ressaltar que exprimir em uma obra (ou expor a obra) cena de zoofilia, violência, pedofilia, repressão ou o raio que o parta não é, por si só, uma incitação a essas práticas, pode ser uma reflexão de qualquer forma, então o contexto tem que ser analisado.

E para quem está criticando o Santander por ceder à pressão popular, vale lembrar que o Santander é um banco, que depende de nome, reputação, opinião popular e, acima de tudo, lucro. Se a Procuradoria Geral da República, se o Supremo Tribunal Federal – que deveriam seguir a lei – sucumbem diariamente à pressão popular, não vejo descrédito nenhum em uma empresa privada fazê-lo.

Vamos falar então sobre liberdade de expressão, que é o que impera nessa discussão. A liberdade de expressão dos artistas é mais forte do que a liberdade de expressão do público? Certamente não. Elas são iguais e devem ser restringidas de forma a poderem coexistir (desde que não ofenda outros direitos).

Em outras palavras, você pode boicotar uma exposição pelos motivos que bem entender: porque usou dinheiro público, porque não gosta do banco, porque não gosta de arte moderna, arte cubista, arte abstrata, não gosta do autor. A forma desse boicote, todavia, deveria respeitar a alguns preceitos de urbanidade e respeito, e não deveria – nunca – se confundir com violência, depredação ou outras práticas que foram adotadas.

Excessos à parte, a realidade é que:

Se você acha imoral utilizar figuras religiosas em mensagens pagãs, você tem todo o direito de gritar que não concorda com esse tipo de utilização.

Se você acha um absurdo a exposição de cenas sexuais, de objetos fálicos, enfim, de qualquer cena com uma conotação sexual explícita que contrarie a família brasileira, você tem todo o direito de cortar seu cartão do Santander, postar nas redes sociais que você acha que sexo tem que ser feito em casa e que a pureza da sociedade está se esvaindo com essa cultura do funk.

Se você acha ofensivo expor cenas homossexuais e enaltecer a cultura gay, você também tem todo o direito de se revoltar e achar que os gays tem que ser gays dentro de casa. Ok, aqui eu sugeriria cuidado, porque as chances de você ofender alguém, falar algo preconceituoso e cometer um ilícito civil ou criminal são grandes. Mas ainda assim, em termos de liberdades, você pode achar o que você quiser e pode boicotar, sim, a exposição ou até mesmo o banco, desde que não ofenda ninguém.

Se você achou absurdo que tem uma obra que representa uma cena de coito com um animal, pois você tem todo o direito de se revoltar, se recusar a ver essa obra, e mais, de recomendar que seus conhecidos não compareçam nessa exposição.

Se você se ofendeu com a obra baseada no Tublr “criança viada”, página baseada em fotos de crianças fazendo poses típicas de divas da cultura pop (engraçadíssimas, por sinal), você também tem direito de reclamar e boicotar o banco.

Aliás, por mais incrível que possa parecer, se você não gostou do tema, do objetivo ou dos artistas expostos, você pode – pausa dramática – não ir à exposição. E digo mais: quem foi e não gostou tinha o direito de ir embora.

A realidade é que, em relações privadas, você pode se indignar, reclamar, cortar cartão, fazer textão, rescindir o contrato, o que você quiser, desde que não ofenda ninguém. Você também pode não ir, não recomendar, criticar e tudo aquilo inerente à liberdade de expressão. Confesso que se o Santander Cultural fizesse uma exposição que eu julgasse desrespeitosa, eu também a boicotaria (de forma educada e responsável, mas boicotaria). Não sejamos hipócritas, o boicote é uma arma que temos para apoiar empresas (ações, propostas ou o que for) com as quais nos identificamos – e mais, para moldá-las ao nosso conceito ideal de sociedade.

Pois bem. Tudo isso para falar que eu concordo com o boicote? Não. Muito pelo contrário.

O problema surge quando as acusações fogem da realidade, o foco é distorcido e as reações passam dos limites.

Um grupo de pessoas se revoltou com o enaltecimento da cultura LGBT, ou com as representações pagãs de ícones cristãos, ou qualquer outra coisa específica. Sem dúvidas.

Acontece que revoltas pudicas, puritanas, religiosas, homofóbicas e afins, hoje em dia, não dão muita repercussão, isso se não ganham uma repercussão negativa. Se insurgir contra o tema diversidade, cenas de sexo, tema LGBT apenas daria força à exposição, e, se utilizando dos meios leais, a adesão ao boicote seria pouco expressiva e talvez a fortalecesse.

Então, se a realidade não gera rebuliço, o que fazer? Fake News!

Hoje a exposição é tida na internet como um antro de pedofilia e zoofilia.

Mais de 200 obras que INCOMODAM (no bom sentido, um dos papeis da arte é incomodar mesmo). UMA DELAS, de Adriana Varejão, de 20 anos atrás, dentro de um contexto, que mostra sem tanto destaque um animal em uma relação com duas pessoas; e UMA DELAS, de Bia Leite (imagem em destaque), obra baseada em um Tumblr de fotos de crianças fazendo poses preconceituosamente tidas como “viadas” pela sociedade (e rindo disso); foram suficientes para manchar uma exposição inteira.

 

varejão
ADRIANA VAREJÃO: Cena de interior II, 1994

 

Defender a exposição passou a ser considerado como defesa da pedofilia e da zoofilia para crianças. Se manifestar de forma favorável à liberdade de expressão dos artistas tem gerado respostas como “então você acha certo obrigar uma criança a ver imagens de sexo entre adultos e bebês?”. E quem é a favor da pedofilia? Os avisados se sentem encurralados, os desavisados esbravejam, mesmo sem ter visto uma só obra que exprimisse, enaltecesse e muito menos que fizesse apologia à pedofilia. E não sou só eu, ou esse povo depravado por aí dizendo isso, mas até um promotor foi à exposição e assegurou que não há pedofilia.

Também é mentira que havia uma obra para as crianças “se tocarem”. Essa era uma obra antiga de Lygia Clark, destinada a adultos, apenas exposta com manequins, sem espaço para interação.

trajes lygia clark
Reprodução foto: Roger Lerina, para a Folhapress

 

Esse é o objetivo de notícias falsas e deturpadas como essa. Tira-se a razoabilidade do comentário público e se sustenta tanto ódio que o debate fica prejudicado. A partir daí, pelas notícias de que a exposição ensinava às crianças que a pedofilia é uma prática comum e louvável, a revolta se espalha. E com o clamor social vieram os insultos, o ódio, a violência, a associação de “LGBT” a “pedofilia”, o descrédito da arte e tantas outras coisas odiosas. O patrimônio do banco foi depredado, houve briga, tentativas de impedir o acesso do público à exposição e daí para baixo, isso afora os absurdos corriqueiros nos comentários de notícias e redes sociais.

 

Por tudo isso que esse boicote foi uma quase censura. O Santander se viu obrigado a fechar as portas em função da ação de manifestantes que passaram dos limites de exprimir opinião, e pior, que se viram legitimados por uma multidão que acreditou na notícia de que aquela exposição incitava a pedofilia e a zoofilia. Se de um lado o cancelamento da exposição não foi formalmente imposto, por outro a opinião popular foi altamente inflamada por notícias completamente deturpadas. Isso degrada a imagem dos artistas, da causa LGBT, da luta pela tolerância e diversidade, e de uma empresa privada que investiu nisso.

Vamos discutir o sexo na arte?

Vamos discutir a expressão LGBT na arte?

Vamos discutir a necessidade (ou não) de censura e exposição desse material a crianças?

Vamos discutir o uso de lei de incentivo para esse tipo de conteúdo?

Vamos discutir liberdade de expressão?

VAMOS.

Mas não me venha deturpar os fatos e mascarar o seu descontentamento para manipular as massas e acabar com uma exposição por outro motivo, sem se preocupar com os danos causados.

Esse tipo de prática é desleal, tira muita força do discurso das minorias e aliena a sociedade. Passa-se a ser aceitável criticar artistas renomados que se predispuseram a tratar de temas importantíssimos, tudo sob uma máscara de proteção da criança contra a pedofilia, assunto que ninguém tem coragem de deslegitimar.

Estamos precisando de quem dê a cara a tapa. Quer defender a família brasileira? Pois defenda a família brasileira abertamente e aceite a imagem de antiquado, retrógrado, pudico, ou o que quer que seja. Se você concorda com ela, certamente não vai se sentir prejudicado. Ou vai? Quer discutir o uso da Lei Rouanet para esse tipo de exposição? Pois questione benefícios para esse tipo de exposição, e não uma inexistente imoral pedofilia.

Deslegitimar uma expressão artística por meio desse expediente é – aí sim – totalmente imoral. Precisamos dar os nomes aos bois e debater a raiz dos problemas.

Essa polarização esquerda/direita, petralha/coxinha, já deu no que tinha que dar.

Essa mania de mascarar os reais interesses por trás das discussões e deturpar fatos para facilitar a incitação ao ódio é um completo desserviço à sociedade.

Por isso repito: irresponsáveis.

 

***

foto destaque: divulgação santander/cultural – Criança viada, de Bia Leite

 

Esclarecimento: As imagens expostas não foram – todas – disponibilizadas pelos veículos sérios de informação. Recebi imagens de pedofilia bastante explícitas que não parecem ter sido expostas, mas que, óbvio, foram divulgadas como se tivessem sido. E é claro que criticar, repostar, apontar o dedo sem consultar a fonte é muito mais fácil do que passar (como eu passei) algumas horas fazendo buscas reversas de imagem para tentar encontrar alguma fonte confiável que relacionasse as imagens à exposição. E não achei.

A liberdade de expressão tem, sim, limites, e por isso que a discussão seria muito mais complexa se essas imagens realmente estivessem expostas, pois aí há uma questão de contexto, objetivo e mensagem a serem analisados. Em outras palavras as opiniões se dividem muito mais, se polarizam mais, e é muito mais fácil arrebanhar opiniões contrárias e radicais. A utilização dessa polarização sem a presença desse tipo de imagem, portanto, é irresponsável, pois serve para desviar o foco para uma zona mais cinzenta.

Caso você encontre (através de uma fonte confiável) alguma imagem explícita de pedofilia que tenha sido efetivamente exposta, envie o link nos comentários e se posicione. Isso mudaria um pouco o cenário e daria espaço para outra discussão, muito mais profunda e complexa. Não parece ser o caso de tê-la aqui.

 

 

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