Em quem NÃO votar

De início, acho válido estabelecer algumas premissas. Essa reflexão não tem a intenção de atingir o petista raiz, nem o bolsomínion raiz. Eu quero conversar com os Nutella.

Se você não está familiarizado com a terminologia, raiz é o cara que é PT ou é Bolsonaro desde o início, por ideologia, e digo mais, de forma cega. É o eleitor que não reflete sobre o que seus representantes fizeram e não conseguem criticá-los, gostar deles apesar disso ou daquilo.

É impossível dialogar com quem não assume seus erros, com quem esbraveja “fascista”, “nazista”, “estuprador” para qualquer discordância política, ou por quem sofre de uma falta de empatia patológica, tem ojeriza às defesas das minorias, que aplaude candidatos quebrando a placa de rua com o nome da Marielle Franco, negra brutalmente assassinada em razão de sua cor e atuação política, ou compactuam com as agressões a negros e pobres, com a expulsão de gays de estabelecimentos, dentre outros.

Ora, os ânimos estão tão aflorados porque essa discussão passa ao largo da política. Trata-se de uma questão moral, que pode legitimar uma ideologia. E isso demanda reflexão. Calma. Tempo.

Quem critica o Bolsonaro, acredite, não é necessariamente petista. E vice-versa.

Dito isso, vamos falar um pouco do que realmente importa nessas eleições: por que não votar no PT ou no Bolsonaro?

Em termos de propostas, ambos têm algum risco. Mas antes de qualquer coisa, precisamos falar sobre ideologia. E não estou falando da dialética direita-esquerda, petralha-coxinha, liberal-conservador.

O que o discurso deles representa?

De um lado, o tapa na cara da sociedade de um candidato que baseia sua campanha em um guru político condenado e preso. Sim, é bizarro. Mas não podemos deixar de colocar alguns pingos nos “i”s. Haddad é advogado, acompanha de perto os processos do lula e, em especial, o processo do Triplex. Uma condenação bastante questionável (analisei a sentença aqui), e uma prisão explicitamente contrária à constituição, em meio de um judiciário abertamente ativista. Haddad também nutre uma admiração pelo ex-presidente que é internacionalmente reconhecida.

Isso não apazigua o tapa na cara da sociedade. Haddad podia admirar e defender a liberdade do ex-presidente, sem consultá-lo, sem tratá-lo com tanta deferência. Não se trataria de ser falso, cuspir no prato que comeu, mas apenas exercer seu papel de candidato, com sua personalidade própria. E isso se deu pela escolha política do PT em colocar o Lula como candidato, quando claramente isso não daria certo. São escolhas, talvez teimosas, que possivelmente saíram pela culatra.

Já o Bolsonaro tem outra postura. Bruta, áspera, truculenta, muito embora a sua campanha esteja tentando amenizar sua postura preconceituosa, atribuindo essa imagem a manifestações fora de contexto e fakenews.

Admiravelmente, tem muita gente entrando nessa onda. Fico me perguntando em que contexto alguém poderia falar que não estupraria uma mulher porque ela é feia. Em que contexto é aceitável falar que um quilombola pesava 7 arrobas e não servia nem para procriar? Ou falar que ninguém gosta de gay mesmo, ou que se o filho demonstrasse trejeitos deveria apanhar até virar homem. Em que contexto falar que um filho nunca namoraria uma negra porque ele foi bem educado é razoável?

Quanto todos criticamos – você certamente criticou também – o Trump por falar barbaridades no seu âmbito privado, o argumento era: isso não se fala nem mesmo no vestiário masculino. Idiotas, né? Ignorantes? Era disso que a gente chamava os americanos que o elegeram.

Pois o Bolsonaro falou tudo isso e muito mais em entrevistas e palestras gravadas. Que sonega imposto, que mulher tem que ganhar menos, que não voaria num avião pilotado por um cotista, que é a favor da tortura, que a ditadura devia ter matado em vez de só torturar, que mataria mais 30 mil. Mais? Que usava o dinheiro do auxílio moradia pra “comer gente”, que se fosse eleito daria o golpe no primeiro dia (sim, isso faz tempo, mas em que contexto que isso é válido?), que a polícia tinha que matar mais, mesmo que inocentes morressem… e por aí vai! Falou às claras e com orgulho. É uma pessoa tão sem noção que ao ser colocado na parede por Ellen Page (uma atriz gay), ele respondeu que ela é bonita e que inclusive assobiaria para ela na rua. E eu não vou nem entrar nas declarações do seu vice.

Não são opiniões entre amigos, ouvidas porque o microfone de lapela ficou aberto, ou porque alguém gravou sem ele perceber. Foi tudo falado e repetido, batendo no próprio peito, com orgulho. Apesar de serem igualmente enojáveis, o discurso preconceituoso aberto e convicto é muito mais perigoso.

Em um discurso – e na minha opinião isso foi uma das maiores atrocidades que eu já ouvi – ele esbravejou, sendo ovacionado, que ele vai fazer um Brasil para as maiorias. “As minorias tem que se curvar às maiorias”, e ainda vai além, defende que as leis devem existir para defender as maiorias, completando que “as minorias que se adequem ou simplesmente desapareçam”.

“as minorias que se adequem ou simplesmente desapareçam”

É o presidente do homem-cis-branco-hétero e rico.

Por isso o passo inicial para você, eleitor ou eleitora do Bolsonaro, é aceitar quem ele é. Vote convicto, sem passar pano, sem diminuir, sem ignorar quem ele é e o que ele faz. Seu presidente é sim machista. É sim racista, homofóbico, misógino.

E o discurso dele é, sim, de ódio. Seja pelo tom, seja pela forma, seja pelo conteúdo, Bolsonaro é uma pessoa que não sabe ser contrariada. Suas respostas são sempre violentas, exaltadas, ásperas e tentam acomodar seu preconceito diminuindo o seu alvo.

E mesmo reconhecendo isso tudo, isso não torna você necessariamente preconceituoso.

Mas o torna conivente. E ao compactuar com isso nós passamos um recado à sociedade, que embora você não concorde 100% com ele, as premissas dele estão certas. Por isso esse discurso aberto e convicto é tão perigoso. Dizer que não concorda totalmente com alguém que prega a violência, que quer resolver a orientação sexual na porrada, que diminui as mulheres, dentre tantas outras barbaridades, indica que você concorda um pouco. Que você não acha que tem que dar lampadada em gay, mas que melhor eles não andarem de mãos dadas. Que você não odeia preto, mas melhor eles subirem pelo elevador de serviço.

Repito que votar no Bolsonaro não te torna adepto dessa ideologia, mas legitima ela. Faz com que o amiguinho que pensa assim entenda que tudo bem agir dessa forma.

Isso, num contexto de multidão, é extremamente grave. Sabia que o código penal prevê redução de pena (é uma atenuante) para crimes cometidos “sob a influência de multidão em tumulto”? Isso porque as nossas travas morais (aquela vontade de fazer algo que você sabe que é errado, mas dá vontade de fazer mesmo assim), quando legitimadas por outras pessoas (10 ao seu lado fazendo igual), tendem a diminuir.

Por isso que vemos aquela dona de casa agredindo o ladrão que foi preso pela multidão. Por isso que vemos pessoas tímidas e educadas xingando uma figura que desgosta junto com o restante das pessoas. Esse sentimento de acolhimento vale para tudo, inclusive boas ações (pessoas precisando de ajuda p.ex., que basta o primeiro ajudar que todo o resto se solidariza).

Pois bem. Você, eleitor Nutella (lembre-se, elogio), que pode até não odiar gays, que pode até não ser violento – e digo mais, pode até não ter sequer esse ímpeto de quero, mas não posso – ao votar no Bolsonaro, legitima os que tem.

SÃO. ASSUSTADORAMENTE. MUITOS.

Basta olhar os relatos nas redes sociais de pessoas que estão sendo agredidas fortemente sem motivo. Pessoas sofrendo uma violência policial ferrenha. Sofrendo violência mesmo.

Eu, criminalista, já ouvi alguns relatos de gente próxima, me perguntando o que fazer. Uma menina que gritou “ele não” em um ambiente público e tomou um soco na costela. Uma menina que pichou “ele não” em um muro (sim, pichar é errado), e foi espancada por policiais gritando “ele sim” (com direito a chutes de coturno por alguns policiais enquanto estava deitada no chão enquanto era chamada de petista, puta, vagabunda dentre outros).

Também ouvi relatos de gays sendo ameaçados na rua. Ameaçados e ameaçadas mesmo. Algumas delas fazendo referência que “isso ia acabar” depois de eleito.

Estamos lutando, enquanto sociedade, há anos para combater a desigualdade e o preconceito. E eleger uma pessoa com esse discurso tem potencial para um retrocesso inenarrável!

E mesmo que você não esteja no grupo de risco, mesmo que não tenha o mínimo de empatia pelos grupos de risco, saiba que a ameaça à existência deles coloca a sociedade, como um todo, em risco. Porque quando ameaçado e desesperançoso, o ser humano é capaz de muita coisa.

Isso sem falar nas políticas econômicas vagas e completamente contraditórias com a história de votações e posicionamentos do candidato, que assustam um pouquinho. E nem que o candidato tivesse a mínima possibilidade de acabar com a corrupção e resolver a economia… valeria a pena esse custo? De que adiantaria uma economia próspera e um país sem corrupção, mas com princípios transviados?

Por isso o que pega mesmo são as políticas sociais e as políticas de segurança pública do Bolsonaro, que têm potencial para tornar esse país muito mais violento. Isso que estamos vendo é só o começo. O problema é que muitas vezes a gente só percebe quando isso atinge o nosso próprio umbigo, mas se você é maioria… vai demorar pra atingir e, quando atingir, já vai ser tarde demais.

Por isso que a decisão é fácil. Fosse PT, fosse PSOL, fosse PSDB, fosse quem fosse: Bolsonaro não é uma opção.

O Haddad fez uma administração economicamente exitosa em São Paulo e criou uma controladoria exemplar no combate à corrupção.

Mas eu sei que o antipetista não vai deixar de ser antipetista, independentemente do que eu fale. Por isso o meu apelo é moral.

Resta avaliarmos nossos princípios, nossa moral, nossa empatia com os outros, e avaliar qual é o menos pior. O cara (ao que tudo indica, honesto) que se ancora num partido corrupto, ou o cara (ao que tudo indica, desonesto) que flerta com o fascismo e com o autoritarismo?

A resposta deveria ser fácil.

O fato de tantas pessoas estarem em dúvida já é desestimulante, decepcionante, extremamente entristecedor. Imagino que muitos se ancorem no argumento de que “eu não concordo com tudo o que ele diz”, e por isso volto a bater nessa tecla: você sabe em que você está votando, então não se esquive da responsabilidade, do sangue correndo pelas suas mãos.

Parece exagero, mas é por isso que tem tanta gente indignada, brigando com as famílias, com os amigos. Porque não estamos falando sobre política. O que esse voto representa e legitima é, fazendo uma hipérbole para fins exemplificativos, uma pessoa que prefere ver alguns sendo atacados porque a economia vai mal, cortar direito fundamentais porque o país está muito corrupto, arriscar o estado democrático de direito (conquistado a duras penas) porque é um despautério defender o Lula. Então compreenda que o seu voto pode até não ter essa finalidade, mas, para mim, é isso o que ele representa. Foda-se a esquerda, a direita, o centrão… só não consigo admitir votar num cara que tá seguindo os mesmos passos dos ditadores que criticamos a vida toda e achar que tudo bem.

Se mesmo assim o seu voto é Bolsonaro, vá em frente. É sua opção democrática. Lamento muito, me decepciono muito, mas faz parte do jogo. Eu só espero, sinceramente, que daqui a quatro anos nós consigamos reverter, democraticamente, os nossos erros.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: